-Filipe, Anarquismos.
terça-feira, 28 de maio de 2013
Você é o que você é ... ponto final.
"Joaquim
não é João. Como diria minha mãe: você não é todo mundo, meu filho.
Estou começando a concordar com ela. Eu não sou todo mundo, sou mais eu,
mais mim, mais mais ninguém. Quando criança achava que se Maria fazia
algo, eu também podia fazer e minha mãe vinha sempre com aquela velha e
clássica frase: “Se ela pular do penhasco, você pula?”. Sim, mãe, eu
pulo, ou pelo menos pulava, naquela época, era Maria-vai-com-as-outras
da Maria. Mas hoje não. Hoje tenho colocado os pingos nos “is” e os
pontos finais nos fins dos textos. Assim como Joaquim não é João, eu não
sou todo mundo. Fujo e me escondo da realidade, das memórias, das
pessoas. Autonomia. Palavra complicada de aprender e, principalmente, de
realizar. Oras, tudo é difícil, tudo é chove não molha, mas eu quero é
me molhar, me lançar na chuva e me encharcar com essas ideologias.
Autonomias. Independências. Mortes. Chocolates. Que frivolidade! Por que
tudo é tão difícil, ou melhor: Por que tudo é tão vida? Ela nos
enterra, cospe na nossa cara, ri com aqueles dentes amarelados e ainda
pergunta: “Cadê toda aquela sua autonomia?”. Com minhas forças findadas,
pelo enterro feito por minha própria vida, eu respondo: “A vida levou
de mim."
segunda-feira, 27 de maio de 2013
Nunca diga Nunca.. sacou?
"E ela
foi minha primeira namorada, encerrando os meus pés descalços e bermuda
desfiada na região dos joelhos vermelhos. Foi meu primeiro beijo, minha
primeira memória. Foi o primeiro prato extra que saiu do armário no
primeiro natal que tive que comprar presente pra alguém. Foi meu
amadurecimento, minha fruta caída, minha primeira parada na vitrine da
joalheria, imaginando aquele anel de ouro branco nos finos dedos que eu
entrelacei os meus no meu primeiro pedido cheio de vergonha. A segunda
colher na panela de brigadeiro que devorava sozinho aos domingos. O
primeiro urso que comprei com o dinheiro da minha mesada. A primeira
chateação com a minha péssima memória para dias importantes, o primeiro
amor… Aquela desgraçada que só sabia me explorar. Ainda bem que acabou, e
digo que acabou tarde! Filha da mãe. Nem era tão bonita assim pra ser o
meu primeiro erro. E a sensação de olhar pra trás e pensar: Mas por que
diabos eu me apaixonei por aquele demônio? Mulher chata, sim. Muito
chata. Eu disse e agora repito: Amor é uma droga. Uma droga que mata os
que não se viciam nele. Não pode ser coisa desse mundo. Não pode, não. E
só pode ter vindo lá de baixo. O bom é ser livre! Guardar o prato no
armário e comer na casa dos amigos. Carência é coisa de pau mandado. Foi
numa das bebedeiras, escutando rock pesado, que eu conheci aquela
menina da rua de cima, que mora embaixo da macieira mais linda de
roubar. Papo vai, papo vem, você quer namorar comigo, moça bonita? Dessa
vez é pra sempre. Não é possível que não seja. São pássaros cantando,
são borboletas voando. São minhas notas de literatura atingindo o nove e
o dez e os parabéns da professora que sempre me diz com um sorriso no
rosto: “Mas esse menino nunca esteve tão sensível”, são meus pais
chamando na hora do jantar “O que foi que deu nesse moleque pra nem
tocar na comida? Isso só pode ser amor”. Vai dar casamento. Ela não fala
demais, ela não me cobra presente, ela nem gosta tanto de brigadeiro
assim. Ela gosta de música lenta, de saia verde e de tocar a ponta dos
outros dedos com o polegar. Eu tinha nomes lindos pros nossos filhos, eu
chamei parente pra ser padrinho. Aí ela disse que não dava mais certo.
Que tava confusa, que ia viajar e que era nova demais. Meses depois a
safada viajou pra não sei onde me trair com não sei quem. Soube que
noivou com um cara marinheiro. Mulher não presta. Amor não presta.
Paixão, então? Quem é que precisa de paixão? Quem é que precisa de
chifre, quando não se quer mugir? Isso é bom pra eu aprender a deixar de
ser besta. E como tem homem besta nesse mundo, meu Deus. Dar a vida em
troca do amor de uma mulher. Tenho até pena do marinheiro, que vai casar
com uma criatura mundana. Ingrata. Meus amigos logo ficaram sabendo da
tragédia. Churrasco! Vamos bebemorar. Porque só presta assim. Homem
esquentando a barriga numa churrasqueira, muita carne e mulher
desconhecida que é pra não se apegar. Eu não vou casar nunca! Ter meu
apartamento, meu carro, meu trabalho meu cachorro, e minha panela de
brigadeiro. E foi no tal churrasco que eu conheci o amor da minha vida.
Aquele sorriso lindo, aquele cabelo loiro solto, aquele óculos meio
torto… O pessoal do escritório falou: Você não perde tempo. Só perde
tempo quem não ama! Essa sim vai saber me dar valor. Viajamos pelos
quatro cantos do mundo, tiramos fotos em Bangladesh, em Nova York e em
Dubai. Mulher companheira, independente, dona do próprio carro. Compra
os próprios cigarros. Veio de cinco relacionamentos fracassados. Achei
desnecessário contar do passado… Como diria Jorge Vercilo, os amores
passados tornaram-se pontes pra que eu encontrasse aquela obra
fantástica dos céus no churrasco de comemoração minha separação. E ainda
há quem diga que não existe destino, não é mesmo? Fomos morar junto e
compramos até um cachorro, um simpático buldogue. Fomos felizes durante
cinco anos, até que a coitadinha morreu num acidente de carro. O amor é
mesmo uma porcaria. Eu vou dizer, rapaz: Nunca, escreva aí o nunca em
letra maiúscula, eu nunca, n-u-n-c-a mais vou amar alguém de novo.
Porque eu só sei amar errado. Amor é como as mulheres, amor me usa, amor
me trai, amor morre. Eu não vou me apaixonar de novo. Agora é só eu, o
buldogue e a panela de brigadeiro queimada. Ah, o caminhão de mudança
veio trazendo a nova vizinha. Mas não é que ela é bonitinha… Ei, moça,
seja bem vinda!"
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