sábado, 8 de junho de 2013

Cartinha de pai pra filho

"Olá, João. Ou João Gabriel. Ou Santiago, não sabemos ainda, eu e sua mãe não conseguimos nos decidir. Sei que eu queria brasileirar Lenon ou Dilan, mas sua mãe anda redutiva quanto a isso, diz querer protegê-lo. Mas do quê, a gente pode saber? Talvez de fazer sucesso com as menininhas do Jardim de Infância com um nome lendário desses. Mas não se chateie, ok? Nós vamos encontrar uma solução. Bem, eu não sei como começar isso, é estranho falar com uma barriga gorda, a última vez que fiz isso foi aos sete anos quando o tio Lino me jurou ter comido o Caco, um hamster branquinho que eu tinha. Mas isso é uma longa história. Você quer um hamster também? O pai compra. Pai. Que troço esquisito pra quem ainda come sucrilhos pela manhã. Mas agora está tudo bem. Nós não planejamos você, mas o inesperado aconteceu. Primeiro eu tive algumas crises peterpânicas, sumi por um tempo, cheguei a sugerir que você fosse interrompido. Aí veio o ultrassom, aquela canção do Cat Stevens num comercial sobre o verão, os livros do “Diário de Um Banana” na livraria perto daqui. Então eu decidi que precisava de você, talvez mais que você de mim. Acho que você pode me ensinar muitas coisas. Não coisas como lidar com peitos, isso eu já aprendi aos 23. Há montes de outras coisas que eu preciso saber, como ser menos egoísta, menos farisaísta, menos inconsequente. Ou como dar nó em gravatas, seu avô já tentou trezentas vezes, mas acho que ele não sabe direito o que está fazendo. Bem, acho que já deu pra sentir que ainda estou confuso quanto ao meu papel nessa peça que a vida me pregou. As coisas vão mudar, eu sei, mas acho que vou me sair bem. Dizem que, agora sim, vou conhecer o verdadeiro amor. E, confesso, estou curioso e trêmulo. Talvez eu desmaie no seu parto, tudo bem pra você? Mas é só questão de idade, pulando essa parte a gente pode sair do hospital, conhecer o mundo e passear por aí. Comecei uma poupança pra você. Já tem trinta reais. Sei que não é muita coisa, mas já dá um Mc Lanche Feliz. O que você acha? Depois, mais tarde, talvez uns vinte anos, podemos beber algumas cervejas e falar sobre garotas ou sobre o que está errado na escalação do nosso time do coração. O que você quer agora? Batatas fritas? Uma garupa até a praça do avião? Uma guitarra? Uma estrela do mar? Bem, como você pode ver, o clima é de ansiedade, alegrias e de uns tapinhas nas costas. Tenho recebido muitos abraços, parabéns e recomendações para criar juízo. Não sei que porra as pessoas estão pensando quando me mandam criar juízo. E também não entendo os parabéns, foi fácil e gostoso fazer você, mas isso é papo pra daqui uns quinze anos. Quem sabe, se der tempo, você conheça seu bisavô. Ele está com Alzheimer. Às vezes ele joga o prato inteiro de comida na parede e os adultos acham um pouco triste, mas acho que você vai até achar engraçado. Aliás, estou louco pra escutar seu riso. E também já fiz planos de cantar “Hey Jude” quando você começar a espernear no berço que ganhamos dos seus avós de Pelotas. Não será perfeito o tempo todo. Haverá dias que você vai berrar sem parar e eu vou implorar pra você começar a falar agora mesmo, e diga afinal o que é que você quer. Mas tudo bem, a gente faz as pazes e algumas fuzarcas. E depois você pode adormecer no meu peito assistindo “Três é Demais” no sofá, até a mamãe chegar. Ah, sobre a mamãe. Bem, acontece que não estamos mais juntos. Não sei explicar, essas coisas são meio complicadas, temo que se eu começar a explanar como funciona os relacionamentos você relute sair daí e depois precisaremos gastar todo dinheiro da sua faculdade numa cesariana desnecessária. Vai ser um pouco estranho, mas hoje em dia é comum os pais morarem em apartamentos separados, por mais idiota que isso possa parecer. O lado bom é que você terá dois quartos. É, nós adultos somos muito idiotas mesmo, na maioria das vezes a gente não sabe direito o que está fazendo. Mas não se preocupe, ainda somos amigos, a gente se dá legal e estaremos sempre por perto. Sem brigar, a gente jura. Sei que estamos sempre jurando coisas, mas vamos trabalhar duro. Por você. Certo? Se está bom pra você, dá um chute. Se não, dois. E pode apostar, vamos amar você infinitamente mais e melhor do que a gente já se amou um dia. Como assim, quanto é infinito? Infinito é infinito. É tudo. É pra sempre. É sem fim. É uma coisa que não dá contar nos dedos. Nem na calculadora? Não, nem na calculadora, filho."


quarta-feira, 5 de junho de 2013

Texto do Tumblr de Marcos Filipe

"E agora ela diz que sou uma “graça”, mas de engraçado eu não tenho nada. Ela vem com esse papo de que sou uma ótima pessoa, bonito, inteligente e blá blá blá.
— Sim, mas e aí?
— E aí? Aí é que tá! De acordo com a “grande” experiência dela de 20 anos, pessoas como eu só servem pra “foder” com a vida de pessoas como ela. Eu não entendi muito bem. Talvez ela tinha lido isso em algum livro do Sparks, sei lá. Se bem que, apesar dela usar óculos e usar um aparelho verde pra combinar com a cor de seus olhos, ela não me parece gostar de Sparks, muito menos de ler livros.
— Sim, mas (…)
— Mas nada! Essa garota é doida, pensa que me engana mas no mínimo, deve ter percebido minha falta de assunto e minha grande dificuldade de lidar com elogios.
— Senhor, eu só quero o seu pedido.
— Hã? Ah, claro. Eu quero batatas fritas e uma coca-cola. Não, melhor, eu só quero uma água. Acho que minha fome era de desabafo. E sem gás, por favor."



terça-feira, 28 de maio de 2013

Você é o que você é ... ponto final.

"Joaquim não é João. Como diria minha mãe: você não é todo mundo, meu filho. Estou começando a concordar com ela. Eu não sou todo mundo, sou mais eu, mais mim, mais mais ninguém. Quando criança achava que se Maria fazia algo, eu também podia fazer e minha mãe vinha sempre com aquela velha e clássica frase: “Se ela pular do penhasco, você pula?”. Sim, mãe, eu pulo, ou pelo menos pulava, naquela época, era Maria-vai-com-as-outras da Maria. Mas hoje não. Hoje tenho colocado os pingos nos “is” e os pontos finais nos fins dos textos. Assim como Joaquim não é João, eu não sou todo mundo. Fujo e me escondo da realidade, das memórias, das pessoas. Autonomia. Palavra complicada de aprender e, principalmente, de realizar. Oras, tudo é difícil, tudo é chove não molha, mas eu quero é me molhar, me lançar na chuva e me encharcar com essas ideologias. Autonomias. Independências. Mortes. Chocolates. Que frivolidade! Por que tudo é tão difícil, ou melhor: Por que tudo é tão vida? Ela nos enterra, cospe na nossa cara, ri com aqueles dentes amarelados e ainda pergunta: “Cadê toda aquela sua autonomia?”. Com minhas forças findadas, pelo enterro feito por minha própria vida, eu respondo: “A vida levou de mim."


-Filipe, Anarquismos. 

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Nunca diga Nunca.. sacou?

"E ela foi minha primeira namorada, encerrando os meus pés descalços e bermuda desfiada na região dos joelhos vermelhos. Foi meu primeiro beijo, minha primeira memória. Foi o primeiro prato extra que saiu do armário no primeiro natal que tive que comprar presente pra alguém. Foi meu amadurecimento, minha fruta caída, minha primeira parada na vitrine da joalheria, imaginando aquele anel de ouro branco nos finos dedos que eu entrelacei os meus no meu primeiro pedido cheio de vergonha. A segunda colher na panela de brigadeiro que devorava sozinho aos domingos. O primeiro urso que comprei com o dinheiro da minha mesada. A primeira chateação com a minha péssima memória para dias importantes, o primeiro amor… Aquela desgraçada que só sabia me explorar. Ainda bem que acabou, e digo que acabou tarde! Filha da mãe. Nem era tão bonita assim pra ser o meu primeiro erro. E a sensação de olhar pra trás e pensar: Mas por que diabos eu me apaixonei por aquele demônio? Mulher chata, sim. Muito chata. Eu disse e agora repito: Amor é uma droga. Uma droga que mata os que não se viciam nele. Não pode ser coisa desse mundo. Não pode, não. E só pode ter vindo lá de baixo. O bom é ser livre! Guardar o prato no armário e comer na casa dos amigos. Carência é coisa de pau mandado. Foi numa das bebedeiras, escutando rock pesado, que eu conheci aquela menina da rua de cima, que mora embaixo da macieira mais linda de roubar. Papo vai, papo vem, você quer namorar comigo, moça bonita? Dessa vez é pra sempre. Não é possível que não seja. São pássaros cantando, são borboletas voando. São minhas notas de literatura atingindo o nove e o dez e os parabéns da professora que sempre me diz com um sorriso no rosto: “Mas esse menino nunca esteve tão sensível”, são meus pais chamando na hora do jantar “O que foi que deu nesse moleque pra nem tocar na comida? Isso só pode ser amor”. Vai dar casamento. Ela não fala demais, ela não me cobra presente, ela nem gosta tanto de brigadeiro assim. Ela gosta de música lenta, de saia verde e de tocar a ponta dos outros dedos com o polegar. Eu tinha nomes lindos pros nossos filhos, eu chamei parente pra ser padrinho. Aí ela disse que não dava mais certo. Que tava confusa, que ia viajar e que era nova demais. Meses depois a safada viajou pra não sei onde me trair com não sei quem. Soube que noivou com um cara marinheiro. Mulher não presta. Amor não presta. Paixão, então? Quem é que precisa de paixão? Quem é que precisa de chifre, quando não se quer mugir? Isso é bom pra eu aprender a deixar de ser besta. E como tem homem besta nesse mundo, meu Deus. Dar a vida em troca do amor de uma mulher. Tenho até pena do marinheiro, que vai casar com uma criatura mundana. Ingrata. Meus amigos logo ficaram sabendo da tragédia. Churrasco! Vamos bebemorar. Porque só presta assim. Homem esquentando a barriga numa churrasqueira, muita carne e mulher desconhecida que é pra não se apegar. Eu não vou casar nunca! Ter meu apartamento, meu carro, meu trabalho meu cachorro, e minha panela de brigadeiro. E foi no tal churrasco que eu conheci o amor da minha vida. Aquele sorriso lindo, aquele cabelo loiro solto, aquele óculos meio torto… O pessoal do escritório falou: Você não perde tempo. Só perde tempo quem não ama! Essa sim vai saber me dar valor. Viajamos pelos quatro cantos do mundo, tiramos fotos em Bangladesh, em Nova York e em Dubai. Mulher companheira, independente, dona do próprio carro. Compra os próprios cigarros. Veio de cinco relacionamentos fracassados. Achei desnecessário contar do passado… Como diria Jorge Vercilo, os amores passados tornaram-se pontes pra que eu encontrasse aquela obra fantástica dos céus no churrasco de comemoração minha separação. E ainda há quem diga que não existe destino, não é mesmo? Fomos morar junto e compramos até um cachorro, um simpático buldogue. Fomos felizes durante cinco anos, até que a coitadinha morreu num acidente de carro. O amor é mesmo uma porcaria. Eu vou dizer, rapaz: Nunca, escreva aí o nunca em letra maiúscula, eu nunca, n-u-n-c-a mais vou amar alguém de novo. Porque eu só sei amar errado. Amor é como as mulheres, amor me usa, amor me trai, amor morre. Eu não vou me apaixonar de novo. Agora é só eu, o buldogue e a panela de brigadeiro queimada. Ah, o caminhão de mudança veio trazendo a nova vizinha. Mas não é que ela é bonitinha… Ei, moça, seja bem vinda!"

sábado, 25 de maio de 2013

Boa tarde - 25/05/13

"Chorar não resolve, falar pouco é uma virtude, aprender a se colocar em primeiro lugar não é egoísmo, e o que não mata com certeza fortalece. Às vezes mudar é preciso, nem tudo vai ser como você quer, a vida continua. Pra qualquer escolha se segue alguma conseqüência, vontades efêmeras não valem a pena, quem faz uma vez não faz duas necessariamente, mas quem faz dez, com certeza faz onze. Perdoar é nobre, esquecer é quase impossível. Nem todo mundo é tão legal assim, e de perto ninguém é normal. Quem te merece não te faz chorar, quem gosta cuida, o que está no passado tem motivos para não fazer parte do seu presente, não é preciso perder pra aprender a dar valor e os amigos ainda se contam nos dedos. Aos poucos você percebe o que vale a pena, o que se deve guardar pro resto da vida, e o que nunca deveria ter entrado nela. Não tem como esconder a verdade, nem tem como enterrar o passado, o tempo sempre vai ser o melhor remédio, mas seus resultados nem sempre são imediatos. Não fique preocupado, você nunca sabe quem está se apaixonando pelo seu sorriso."

- Charles Chaplin.